Crimes cibernéticos crescem no Brasil e exigem mais prevenção, alerta advogado Lucas Carapiá em entrevista
- há 2 dias
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Especialista analisa avanço das fraudes online, impactos do Pix e o aumento recente do rigor regulatório no sistema financeiro

O crescimento acelerado dos crimes cibernéticos no Brasil e a sofisticação cada vez maior dos golpes digitais foram tema da entrevista concedida pelo advogado e professor Lucas Carapiá ao programa Linha de Frente Jus* (assista aqui).
Durante a conversa, o especialista analisou o cenário atual das fraudes digitais, destacou os métodos mais utilizados por criminosos e explicou como o processo de digitalização do sistema financeiro ampliou tanto as oportunidades de inovação quanto os desafios relacionados à segurança.
Segundo dados mencionados no programa, mais de 40 milhões de brasileiros já foram vítimas de crimes cibernéticos, enquanto o número de decisões judiciais relacionadas a golpes digitais saltou de cerca de 69 em 2010 para aproximadamente 129 mil até 2025*. O crescimento reflete a expansão dos serviços digitais e o aumento da atividade econômica no ambiente online.
Vulnerabilidade humana continua sendo o principal alvo
Apesar da crescente sofisticação tecnológica, Carapiá destacou que a principal fragilidade explorada pelos criminosos ainda está no comportamento humano.
“Esse tipo de golpe envolve acesso a dados e tecnologia, mas ele sempre vai ter a vulnerabilidade relacionada à pessoa”, explicou.
Segundo o advogado, muitos ataques utilizam técnicas de engenharia social, nas quais criminosos manipulam emoções como medo, urgência ou confiança para induzir vítimas a compartilhar informações sensíveis ou realizar transferências financeiras. Esse tipo de abordagem permite que golpes relativamente simples tenham alta taxa de sucesso.
Spoofing e falso motoboy estão entre os golpes mais comuns
Entre as fraudes digitais mais recorrentes no Brasil, Carapiá destacou o spoofing, prática em que criminosos utilizam dados pessoais vazados - como nome completo, telefone ou CPF - para se passar por instituições financeiras ou empresas conhecidas.
A partir disso, as vítimas são direcionadas para links falsos ou aplicativos fraudulentos, nos quais acabam fornecendo senhas ou outras informações sensíveis.
Outro exemplo frequente é o “golpe do falso motoboy”, em que criminosos se passam por funcionários de bancos e convencem a vítima a entregar o cartão bancário a um suposto mensageiro.
Mesmo quando o cartão é cortado pela vítima, os criminosos conseguem recuperar informações da tarja magnética ou do chip para realizar transações fraudulentas.
Digitalização ampliou competitividade no sistema financeiro
Durante a entrevista, Lucas Carapiá também destacou que o aumento das fraudes digitais ocorre em um contexto de profunda transformação do sistema financeiro brasileiro. Nos últimos anos, medidas regulatórias adotadas pelos Reguladores, inclusive o Banco Central, estimularam a entrada de novos agentes no mercado, ampliando a concorrência e a inovação no setor.
Entre os exemplos citados estão:
o crescimento das instituições de pagamento
a expansão das fintechs de crédito
a criação do Pix, sistema de pagamentos instantâneos que revolucionou as transferências financeiras no país.
Segundo o advogado, esse processo contribuiu para tornar o sistema financeiro mais competitivo, eficiente e acessível, permitindo a entrada de novos modelos de negócios e ampliando o acesso da população aos serviços financeiros digitais.
Reguladores adotam agenda mais rigorosa de segurança
Ao mesmo tempo, Carapiá observou que o avanço dos crimes digitais levou os reguladores a adotar, especialmente a partir de meados de 2025, uma postura ainda mais rigorosa em relação à segurança do sistema financeiro.
Segundo ele, há sinais claros de uma migração para uma agenda regulatória mais conservadora em termos de segurança, com maior ênfase em:
compliance regulatório
segurança cibernética
proteção do cliente, consumidor e investidor
Esse movimento busca reduzir riscos sistêmicos e fortalecer a confiança nas infraestruturas financeiras digitais.
Desafio é aumentar segurança sem sufocar inovação
Para Lucas Carapiá, o grande desafio atual é equilibrar o aumento das exigências regulatórias com a preservação de um ambiente favorável à inovação.
“Estamos entrando em um momento em que as exigências de compliance e segurança estão aumentando. O desafio é fazer essa transição com eficiência, sem inviabilizar pequenos e médios negócios que também fazem parte do ecossistema de inovação financeira”, afirmou.
Segundo ele, políticas regulatórias bem calibradas são fundamentais para garantir segurança ao sistema financeiro sem comprometer a competitividade e o desenvolvimento de novas tecnologias.
Informação e educação digital continuam sendo as melhores defesas
Ao final da entrevista, o especialista reforçou que o combate aos crimes cibernéticos depende não apenas de tecnologia e regulação, mas também de educação digital da população.
Entre as medidas preventivas recomendadas estão:
Desconfiar de contatos solicitando senhas ou códigos de verificação. Como regra, nunca confirmar dados ou enviar informações solicitadas por ligações ou mensagens;
Confirmar pedidos de transferência financeira diretamente com a pessoa envolvida. Se for o caso, desligar o telefone e ligar para a pessoa, a fim de confirmar se foi realmente ela que entrou em contato;
Evitar clicar em links recebidos por mensagens ou redes sociais;
Comunicar rapidamente o banco em caso de suspeita de fraude;
Fazer o registro do golpe perante as autoridades, guardando todas as evidências que possam ser usadas posteriormente numa eventual investigação e/ou processo judicial.
Para Carapiá, a conscientização do público continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para reduzir o impacto das fraudes digitais.
“A tecnologia evolui rapidamente, mas a melhor proteção ainda é a informação.”
*Leia a matéria completa, publicada pelo portal Aratu On, clicando aqui.
**A pesquisa do Jusbrasil, onde constam os dados de decisões judiciais sobre golpes, foi repercutida pela agência de notícias Lupa, em matéria da Jornalista Carol Macário. Essa matéria pode ser acessada clicando aqui.



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